
Elza Soares morreu nessa quinta-feira ainda trabalhando e com sons e temas sempre conectados ao que estava acontecendo no mundo da música e na sociedade. Seus 70 anos de carreira deixam um legado histórico.
por Amanda Yargas
E assim foi, Elza Soares com 91 anos, gravou DVD nos dias 17 e 18, dias antes de falecer por causas naturais em sua casa no Rio de Janeiro, nesta quinta-feira.
Foram 70 anos de carreira, com 34 discos lançados que misturam samba, jazz, eletrônica, hip hop e funk.
Em 1999, a Rádio BBC elegeu Elza Soares a cantora brasileira do milênio. Em 2016, a cantora ganhou o Grammy de melhor álbum de música popular brasileira com A Mulher do Fim do Mundo, com sonoridades e temas contemporâneos. Apesar da longa carreira, a cada novo álbum se reinventava e foi sempre uma cantora de seu tempo.
Elza teve uma infância pobre e trabalhava para ajudar a família. Aos 12 anos se casou e aos 13 teve seu primeiro filho. Os dois primeiros morreram recém nascidos de desnutrição. Elza teve uma filha sequestrada quando ela ainda era adolescente, que só encontrou 30 anos depois.
O filho que teve com o jogador Garrincha, com quem ficou 16 anos, morreu aos 6 anos em um acidente de carro. A relação foi conturbada e Elza sofreu violência doméstica. A cantora se transformou em uma referência no combate à violência contra mulher com a música “Maria da Vila Matilde”, do álbum “Mulher do Fim do Ano”.
A militância já era então tema corrente na obra de Elza, com destaque para a música A Carne, lançada em 2002, uma denúncia visceral do racismo.
A carreira de Elza Soares começou quando não tinha como comprar remédios para as crianças, que sofriam de pneumonia e se inscreveu em um programa de calouros. ao entrar no palco, com um vestido da mãe que era muito maior que ela, preso por alfinetes em vários lugares, o apresentador Ary Barroso lhe fez chacota, perguntando de que planeta ela tinha vindo. Elza lhe respondeu que foi do planeta fome. Do programa, Elza saiu vitoriosa, e este episódio daria nome ao últimos álbuns da cantora, Planeta Fome, lançado em 2019.